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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

ENTREVISTA COM O NOVO PRESIDENTE DA CORTE INTERNACIONAL DE DIREITOS HUMANOS

 
Do Jota

Perfil 

Segundo brasileiro eleito para presidir a Corte Interamericana de Direitos Humanos, Roberto Caldas foi empossado no cargo nesta segunda-feira (15/2) em cerimônia simbólica em San José, capital da Costa Rica. Antes dele, outro brasileiro integrou a Corte e a presidiu: Cançado Trindade. 

Nos dois anos em que permanecerá à frente da Corte, Roberto Caldas diz acreditar que o Supremo Tribunal Federal (STF) vá julgar nula a Lei de Anistia, de 1979, na linha da jurisprudência da CIDH. 

“Nos próximos anos, esperamos que seja julgado, finalmente, o caso que levará à nulidade da Lei de Anistia com base na Convenção Americana sobre Direitos Humanos”, afirmou em entrevista ao JOTA.  

“Houve a análise da lei pelo Supremo, tendo como base na Constituição, mas nós – CIDH – entendemos que a lei é nula de pleno direito, lastreados na Convenção Americana. Assim, esperamos que tenhamos essa parte do Judiciário cumprindo a decisão da CIDH”, acrescentou. 

Um dos primeiros desafios que Roberto Caldas enfrentará é a falta de recursos orçamentários.

Mais da metade das receitas da CIDH não vem do sistema interamericano, mas de convênios internacionais e temporários celebrados pela Corte. 

“Estamos colocando isso a público porque não nos parece que seja a estruturação devida de uma Corte. E ao colocar a público, não estamos fazendo uma reclamação. Queremos apenas apresentar este ponto para que a sociedade americana e os estados americanos possam observar e decidir se é a estruturação de uma Corte desta importância”, disse. 

Advogado, especialista em Ética, Direitos Humanos e Sociais e Direito Constitucional e do Trabalho, Roberto Caldas foi eleito para a Corte em 2013 e seu mandato termina em 2018. 

Orçamento 

Qual deve ser o plano de gestão do senhor para os próximos dois anos? 
Já começamos com grandes desafios. A Corte passa por um momento que reflete o momento financeiro preocupante dos Estados da eegião. E coincidiu também este momento com a crise da migração para a Europa. Nós começamos tendo de encarar uma realidade de que a cooperação internacional está próxima a finalizar, algumas delas estão anunciando que deixarão de contribuir para o sistema interamericano de Direitos Humanos porque surgiram outras prioridades. É um desafio grande. Eu já verificava no funcionamento da Corte sérios problemas decorrentes do baixo orçamento. Esse é um grande desafio do ponto de vista de gestão administrativa.    

E do ponto de vista jurídico? 
Neste ponto, a situação é diversa. Penso que passamos por um excelente momento. A Corte mais e mais é procurada pelos países e pelos interessados em ingressar na Corte como juízes, de modo que temos nomes de magnitude universal do ponto de vista jurídico. Cada dia mais temos nomes mais relevantes no cenário jurídico internacional. Isso é muito positivo. De modo que nós temos de aproveitar este grande cabedal humano que temos para conseguir levar a Corte a um patamar de institucionalidade que seja compatível com os nomes que a integram. 

O senhor mencionou que alguns acordos de cooperação internacional estão sendo finalizados. Esses acordos revertem dinheiro para a Corte Interamericana. E o senhor fala de dificuldades orçamentárias. Poderíamos detalhar este ponto? Essa saída da cooperação internacional fez com que nos debruçássemos em números. Verificamos que a Corte Interamericana é o tribunal internacional de menor orçamento, ao contrário da importância no cenário internacional. A Corte está, certamente, no topo na escala de importância entre os tribunais internacionais, assim considerado pelos doutrinadores dos principais institutos de Direito Internacional, como Sourbone, Oxford, Essex, Harvard, etc. A Corte tem uma importância realmente modelar no cenário internacional e que não é compatível com este problema administrativo em que nos vemos. O orçamento é baixíssimo. Não podemos funcionar assim. 

Podemos falar de números? 
O orçamento é muito pequeno. Temos US$ 2,7 milhões que vêm da Organização dos Estados Americanos (OEA) por ano. E a Corte recebe quase US$ 3 milhões em acordos de cooperação internacional, principalmente de países europeus. Um orçamento total de US$ 5,7 milhões é certamente menos do que custa um tribunal regional qualquer. Às vezes a Corte Interamericana custa menos que um juízo singular a depender da região. É muito pouco para a importante tarefa que tem. A Corte Interamericana tem missão de analisar inclusive decisões judiciais das mais altas cortes dos países e até mesmo de analisar dispositivos constitucionais (coisa que no Brasil ainda é uma novidade, mas outros países já têm como absolutamente certo que isso é possível).

Essa falta de recursos provoca que tipo de problemas? 
Problemas estruturais dos mais básicos. Por exemplo: falta verba para revisão gramatical das sentenças, falta verba para traduzir as sentenças – e isso é essencial num tribunal que opera oficialmente com quatro línguas –, nunca tivemos uma assessoria de imprensa estruturada – os comunicados de imprensa são feitos por advogados. Grande parte do nosso pessoal é voluntário. Não ganha nada para trabalhar para a Corte. Estão lá como um aperfeiçoamento profissional dada a importância da Corte. Mas isso é o ideal? Não. Com isso temos grande circulação de mão de obra. Pessoas vêm para a Corte, são treinadas e depois vão embora trabalhar noutros lugares. Com isso se perde muito. Perdemos pessoal para outras instituições internacionais. Em temos comparativos: só o que alguns países do nosso continente contribuem para outros tribunais internacionais daria para cobrir todo o orçamento da Corte Interamericana. O orçamento é baixíssimo. Não podemos funcionar assim. Por conta disso, só podemos contar com os juízes em tempo parcial. A Corte não tem como remunerar os juízes. E não falta trabalho. Seria muito bom que os juízes se dedicassem exclusivamente à Corte, mas eles têm de manter o trabalho em seus países para se sustentarem, porque a CIDH só remunera os juízes nos dias em que estão em audiência em San José. Estamos colocando isso a público porque não nos parece que seja a estruturação devida de uma corte. E ao colocar a público, não estamos fazendo uma reclamação. Queremos apenas apresentar este ponto para que a sociedade americana e os estados americanos possam observar e decidir se é a estruturação de uma corte desta importância. 

Qual a participação do Brasil? 
O Brasil contribui via OEA. A OEA nos repassa. O Brasil não tem obrigação de fazer contribuições extraordinárias com a CIDH. Alguns países fazem contribuições ordinárias, como Costa Rica, México, Chile, Colômbia. O Brasil não faz essa contribuição. Porém, há dois anos o Brasil deu uma grande contribuição, que foi a tradução das sentenças da Corte para o Português. Isso seria obrigação da OEA e o Brasil fez pela necessidade de os operadores de Justiça brasileira terem contato com as decisões da Corte Interamericana na língua natural, no nosso vernáculo. Foi um aporte importante – cerca de US$ 700 mil. Valorizamos muito essa contribuição, que foi fruto de um diálogo que estabelecemos. O que pensamos é que os estados passassem a considerar que a Corte, por ser um tribunal típico, não deve estar ao sabor dos ventos políticos. Às vezes um país deixa de contribuir para a OEA por uma razão política qualquer. E com isso a Corte pode sofrer redução de atividades essenciais. A Corte trabalha no limite mínimo. Temos de pensar numa corte minimamente estruturada, com juízes em tempo integral. Deve ser da responsabilidade dos juízes o estudo das decisões, e isso hoje é em muito transferido para assessorias – inclusive voluntárias. A Corte precisa ser institucionalidade. 

Essa dificuldade orçamentária demonstra, de alguma maneira, que os estados não dão a devida importância à CIDH?
Eu tenho uma outra impressão. Talvez há alguns anos eu concluísse assim. Mas, depois de estar estes anos aqui na Corte – desde 2008 participo como juiz ad hoc e nesses dois últimos anos como vice-presidente – eu pude verificar que muitas vezes os estados não sabem sequer se contribuem ou não. Às vezes, alguns dirigentes não sabem a diferença entre Comissão Interamericana de Direitos Humanos e Corte Interamericana de Direitos Humanos. O sistema de Direitos Humanos ainda precisa se aprofundar, especialmente em alguns países grandes como o Brasil (que teve uma ratificação tardia da competência jurisdicional da Corte, o que se deu em 1998). Muitas vezes há desconhecimento, inclusive no meio judiciário. Eu te diria que é muito grande. Às vezes nos dá a impressão de que a Corte é mais conhecida em alguns países europeus do que em alguns países americanos. É impressionante. 

Então, não é opção política dos estados? 
É muito mais desconhecimento em uma América redemocratizada do que propriamente uma ação proposital, uma opção política. A Corte precisa ser institucionalidade. Não pode metade de seu orçamento depender de cooperação internacional. Cooperação é para projetos periféricos, adicionais. Este aporte orçamentário ordinário pelos estados americanos é fundamental que ocorra e é também simbólico, é uma questão de assunção do próprio sistema. Os estados precisam dar sustentação ao tribunal que faz parte dele mesmo, afinal essa Corte não é um tribunal estrangeiro, é um tribunal que é parte de cada país da região. 

A força da Corte 

Lei de Anistia 

No Brasil ainda existe este déficit de conhecimento da Corte Interamericana, de institucionalidade? 
Há um grande déficit de conhecimento da Corte Interamericana e de Diretos Humanos, na verdade. Há uma razão histórica. Nós viemos de períodos autoritários em que a matéria de Direitos Humanos era absolutamente proibida nas faculdades de Direito. Viemos de gerações, inclusive a minha, que não teve a oportunidade de ter na faculdade sequer como disciplina optativa, Direitos Humanos. Isso também vale para a disciplina de Direito Internacional. Era algo superficial, era o Direito Internacional privado – para o comércio –, ou o Direito Internacional público superficial, para as organizações internacionais, mas nada que se dispusesse a aprofundar a declaração internacional de Direitos Humanos, a declaração americana sobre Direitos Humanos, a Convenção Americana de Direitos Humanos – que afinal é de 1979. Nós saímos de várias gerações que não tiveram essa disciplina. Eu me recordo ainda, quando era conselheiro da OAB, que o ministro Paulo Vannuchi, de Direitos Humanos, me solicitou que buscasse uma reunião com o presidente da OAB para que as provas da Ordem passassem a ter questões sobre Direitos Humanos de modo a mover as universidades a disponibilizarem a disciplina de Direitos Humanos mesmo em época de redemocratização, de democratização plena. Esse desconhecimento não tem razão individual nos juízes, advogados, promotores, procuradores, defensores. Não. Isso vem de uma estrutura que antes era preparada para não se dar o conhecimento devido a Direitos Humanos. Essa realidade tem mudado muito. 

A decisão da Corte Intermaricana no caso da Guerrilha do Araguaia vem sendo cumprida pelo Estado brasileiro – com indenizações, instalação da Comissão da Verdade, etc –, mas no Judiciário a responsabilização dos agentes de Estado responsáveis pelos crimes não anda. Existe uma resistência do Judiciário brasileiro a decisões da Corte Interamericana e, especialmente, do Supremo Tribunal Federal? 
Isso tudo é consequência de estarmos há tanto tempo apartados de Direitos Humanos e Direito Internacional. No Brasil, sempre se disse que a última instância é o Supremo. Isso é absolutamente verdadeiro: a última instância é o Supremo Tribunal Federal. Porém, quando se trata de Direitos Humanos há a possibilidade, quando se trate de eventual violação a Direitos Humanos, de abertura de uma instância internacional. Não é uma quarta instância. É outro processo em que não são demandadas as partes do processo nacional, mas o próprio Estado. Isso vem de longe. Não é uma fotografia momentânea. Não há de se dizer que determinado tribunal não quer cumprir a decisão da CIDH. É uma jurisprudência que vinha do passado, uma análise sobre anistia em descompasso com a jurisprudência internacional, não apenas da Corte Interamericana, mas da Corte Europeia e dos órgãos da ONU e também do próprio estatuto de Roma (na criação do Tribunal Penal Internacional). Tudo isso anda em conjunto. No Direito Internacional, desde o pós-guerra, depois da Declaração Universal dos Direitos Humanos e da declaração Americana de Direitos Humanos, em 1948, já houve decisão de criação de tribunais internacionais para analisarem os Direitos Humanos. Por quê? Em razão das atrocidades da guerra e da verificação de que a soberania dos países não resolvia com justiça determinados temas. Por isso, dedicou-se a instâncias internacionais distantes dos problemas políticos paroquiais ou nacionais a decisão sobre as questões mais importantes da pessoa, do ser humano, da humanidade. Essa decisão de criação dos tribunais internacionais é mais antiga. Então, nós vimos no andar da história. 

E sobre a Lei de Anistia? 

Importantes instituições diziam ter participado do acordo para o acordo pela Lei de Anistia, que naquele momento poderia parecer bom para alguns. Porém, sob a ótica do Direito Internacional dos Direitos Humanos, não pode haver acordo quanto a crimes de lesa humanidade. E mais: no caso brasileiro, os chamados crimes de sangue ou crimes que seriam contra direitos humanos perpetrados por guerrilheiros ou subversivos (como eram eram chamados) não foram anistiados. Todos cumpriram pena, aqueles que sobreviveram. O que não pode haver é anistia de agentes de Estado, que é autoanistia, e muito menos de crimes de lesa humanidade. 

A decisão da CIDH sobre o caso Araguaia é de 2010. Mas até agora o Supremo não se manifestou sobre isso. É razoável? 
Dizer que o Supremo ou qualquer outro tribunal esteja atrasando… Cada país tem seu ritmo, cada judiciário tem seu ritmo. Talvez o ponto ótimo de decisão seja exatamente agora, quando há diálogo franco entre tribunais. O STF recebeu a Corte no final de 2013. Na posse do presidente Lewandowski, ele falou da importância de cumprir as decisões dos tribunais internacionais, especialmente da Corte Interamericana – e continua cumprindo vários princípios decorrentes da jurisprudência da Corte, vide como exemplo as audiências de custódia, que estão tendo importância tão grande no Brasil. As audiências de custódia vêm diretamente da jurisprudência da Corte na interpretação da Convenção Americana. Portanto, há um amadurecimento institucional do Judiciário brasileiro. E lembremos que o Brasil é um dos últimos a aderir à competência da Corte e ainda o trato com as decisões da CIDH é ainda baixo. Temos visto que mais e mais a jurisprudência da CIDH é analisada pelos tribunais superiores, por exemplo. Nos próximos anos, esperamos que seja julgado, finalmente, o caso que levará à nulidade da Lei de Anistia com base na Convenção Americana sobre Direitos Humanos. Houve a análise da lei pelo Supremo, tendo como base na Constituição, mas nós – CIDH – entendemos que a lei é nula de pleno direito, lastreados na Convenção Americana. Assim, esperamos que tenhamos essa parte do Judiciário cumprindo a decisão da CIDH. 

O senhor espera isso para os próximos dois anos?  
Sim, assim esperamos. Cremos que já está madura a questão para ser levada. Mas é sempre uma questão de agenda de cada País. Nós estabelecemos o diálogo. A questão já é de conhecimento amplo. E essa é realmente uma questão muito importante para o País e para o sistema internacional de Direitos Humanos. O que não pode haver é anistia de agentes de Estado, que é auto anistia, e muito menos de crimes de lesa humanidade. 

Casos econômicos e sociais estão chegando à Corte e as audiências desta semana demonstram isso. Essa é uma tendência? 
Sua visão está absolutamente correta. Veja: é a primeira vez que alguém da área de direitos sociais chega à presidência do tribunal. Por sinal, foram poucos os juízes da área de direitos sociais que chegaram à Corte Interamericana. Agora há uma conjuminação interessante. Veja que coincide também que o presidente do tribunal europeu de direitos humanos também vem de ser consultor jurídico da OIT (Organização Internacional do Trabalho). Dois dos três tribunais internacionais de direitos humanos têm presidentes da área. 

Quais casos, com este mesmo escopo, o senhor poderia indicar? 
Há casos de fertilização in vitro, direito à saúde, de mobilidade urbana, há um que está chegando do Brasil relativo ao trabalho escravo. São questões fundamentais e que dizem respeito a uma região onde reconhecidamente a disparidade entre oportunidades e renda é muito grande. Nesse sentido, a Corte terá uma agenda óbvia, até mirando o que tem acontecido em muitos tribunais nacionais. Isso é uma realidade: a judicialização de questões coletivas de caráter social. 

Por que essa tendência a partir de agora? 
Eu diria que a redemocratização na região levou à busca por direitos em geral. Veja que em vários países houve movimentos por uma melhor distribuição de renda, acesso à transporte, mobilidade urbana, liberdade expressão de diversos matizes. E os judiciários mostram uma certa direção. Há em vários países requerimentos ao poder judiciário de direitos coletivos, ou seja, uma coletividade busca acesso a direitos. E acesso a direitos é um tema que há muito a Corte Interamericana busca realizar por intermédio de determinação aos estados. Recentemente tivemos casos de saúde chegando a nós – de uma senhora que foi mal atendida num hospital público, foi enviada para um hospital privado supostamente para ter uma cirurgia mais rápida, foi vítima de mal prática. Tivemos caso de fertilização in vitro. Questões relativas a trabalho. Direito à educação. Então, posso dizer que aqueles casos referentes a períodos autoritários já estão – digamos – numa linha descendente. Requerimentos sobre tortura, de excesso de força no combate a guerrilhas ou de o estado prender ou deter, violentar e violar direitos a partir da atividade policial estão em declínio. E novos direitos vêm sendo discutidos. Chegam questões sobre liberdade de expressão, sobre a condição das pessoas, sobre a opção sexual. Vamos ter agora, por exemplo, um caso de uma pessoa supostamente homossexual nas Forças Armadas. Então são questões variadas. Antigamente se chamavam esses direitos coletivos, direitos sociais, direitos sindicais, de meio ambiente, como direitos de terceira geração. E se tinha dúvida sobre se era factível entrar em juízo para obter esses direitos. Essas questões que têm chegado mais à CIDH e à Comissão Interamericana de Direitos Humanos. 

Em casos como estes, o senhor considera que pode haver manifestações ou pressões de grupos organizados, do poder econômico sobre a CIDH?  
A tradição da Corte é a participação ampla da sociedade. Isso é possível via amicus curiae, que na Corte Interamericana é amplamente franqueado. É possível sim que grupos de interesse diversos se manifestem, e isso é muito importante para se chegar a uma definição em cada processo. A possibilidade de estabelecer o contraditório em tudo contribui com a missão de julgar da Corte, de julgar bem. 

E o que tem chegado do Brasil mais especificamente? 
Nós temos recebido casos de presídios. Mas não são processos contenciosos clássicos. São medidas cautelares em que se pede à Corte para tomar medidas mais urgentes. Esses são casos que têm chegado ultimamente. A Corte sempre observa a relevância e a urgência do caso. Então, a CIDH concede muitas vezes medidas cautelares. Varia caso a caso. É uma composição bastante robusta do ponto de vista jurídico, o que para mim é uma honra e um grande desafio. 

Que temas dentro do sistema americano o senhor apontaria como principais desafios para os próximos anos? 
Programas sociais, questões ambientais, acesso à terra, temos visto chegar também temas de mobilidade urbana. Outro tema importante é de liberdade de expressão, a defesa dos defensores de direitos humanos, violência contra jornalistas, pluralismo de mídia. 

Eu gostaria que o senhor descrevesse, por fim, a composição que o senhor vai presidir nos próximos dois anos. 
É uma composição de pessoas bastante experimentadas. Começando pelo ex-presidente, que acabou de deixar o posto, mas permanece como juiz da CIDH, que é colombiano Humberto Serra Porto. Ele foi juiz e presidente da Corte Constitucional da Colômbia. O meu colega mexicano, Eduardo Ferrer Mac-Gregor, um jurista de renome internacional, um dos grandes juristas de Direito Constitucional e de Direitos Humanos. O juiz chileno, que foi reeleito para seu segundo mandato, Eduardo Vio Grossi, também um conhecido constitucionalista. E os três novos na Corte. Em primeiro lugar, o equatoriano Patricio Pazmiño, que era presidente da Corte Constitucional do Equador nos últimos nove anos. É alguém que teve sua inserção na área de direitos sociais. O juiz Raul Zaffaroni, da Argentina, que vem do Supremo Tribunal de Justiça argentino. Zaffaroni é certamente dos juristas mais conhecidos no mundo na área penal. E a juíza Eliabeth Odio, da Costa Rica. É também uma jurista com trajetória invejável. Foi vice-presidente da República da Costa Rica, foi ministra da Justiça, ministra da Educação, foi juíza do tribunal penal para a antiga Iugoslávia, foi juíza do Tribunal Penal Internacional. É uma juíza da maior experiência. É uma composição bastante robusta do ponto de vista jurídico, o que para mim é uma honra e um grande desafio.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

PINHEIRINHO COMPLETA 10 ANOS

 
 Na próxima quarta-feira (26/02), a ocupação Pinheirinho completa 10 anos. 
 
A data será lembrada com a realização de uma manifestação em frente ao terreno, violentamente desocupado e ainda abandonado, às 9 horas. No mesmo dia ocorrerá um ato na Igreja do Perpétuo Socorro no Campo dos Alemães às 17 horas.
 
A luta segue por moradia digna para a população sem teto.
 
SOMOS TODOS PINHEIRINHO!

Relembre o caso:

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

MORADORES DO PINHEIRINHO LEMBRAM DESOCUPAÇÃO E EXIGEM CONSTRUÇÃO DE CASAS


Do PSTU Vale

Dois anos depois da desocupação do Pinheirinho, as famílias da antiga ocupação se mantêm com coragem e muita garra para lutar pelo direito à moradia e exigir seus direitos. Foi isso que pode ser visto nesta quarta-feira, dia 22, no ato político realizado no bairro Emha 2, em São José dos Campos.

Simbolicamente realizado em uma praça próxima do terreno onde serão construídas as 1.800 casas às famílias do Pinheirinho, o ato lembrou o passado, mas também mostrou a luta do presente e a esperança no futuro.


A manifestação reuniu cerca de 400 pessoas, entre famílias do Pinheirinho, moradores do bairro Emha 2, dirigentes sindicais, ativistas do movimento popular, parlamentares do PT e representantes do PSTU e do PSOL. Moradores da Ocupação Esperança vieram de Osasco/SP para participar do ato.


As famílias cobraram a punição dos responsáveis pela ação marcada pela violação dos direitos humanos, bem como exigiram agilidade na construção das casas prometidas pelos governos federal, estadual e municipal, e outras reivindicações.



Punição dos responsáveis
As cenas de mulheres, crianças e idosos sendo expulsas e despejadas violentamente de suas casas por dois mil policiais chocou o país e teve repercussão internacional.

A brutalidade da ação na madrugada daquele domingo, em 2012, e as diversas violações dos direitos humanos pela PM, governos e judiciário foram lembradas nas falas durante o ato. Doze ações criminais tramitam na justiça, mas até hoje ninguém foi punido. Ações também pedem a reparação dos danos morais e materiais às famílias.

Em cima do caminhão de som, falaram pessoas como Antonio Macapá, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos, entidade que apoiou o Pinheirinho desde o início, Josias Melo, da associação de aposentados Admap, João Batista Arruda, pela CSP-Conlutas, Joaquim Aristeu, também dirigente da CSP-Conlutas e do PSOL, a presidente da Câmara, Amélia Naomi, e o chefe de gabinete da Prefeitura de São José dos Campos, Marcos Aurélio dos Santos, que representou o prefeito Carlinhos Almeida, entre outros. O senador Eduardo Suplicy também enviou um representante.

O deputado estadual Adriano Diogo (PT) lembrou dos abusos cometidos pela PM, como o estupro de jovens no dia da desocupação fora do Pinheirinho, e o padre Ronildo Aparecido da Rosa citou a insensatez da juíza no episódio.

Contudo, o ato não foi apenas para lembrar a desocupação. Os moradores do Pinheirinho têm uma série de reivindicações junto aos governos federal, estadual e municipal, como a cobrança por agilidade na construção das casas, o reajuste do aluguel social e a desapropriação do antigo terreno.

A ex-moradora do Pinheirinho Gina Silva disse que a pressão do movimento fez os governos se comprometerem a comprar o terreno no Putim 2 e prometer a construção de casas, mas nada ainda foi concretizado.

Estamos escaldados. Só vamos acreditar quando a escritura e as chaves estiverem em nossas mãos. Por isso, o ato de hoje é muito importante. Pra mostrar que ainda estamos em luta. Alias, deveríamos até lutar ainda mais”, disse.


Outras reivindicações
Luzia Aparecida, outra moradora, falou da necessidade de se reajustar o aluguel social. “A desocupação foi muito chocante e até hoje ainda enfrentamos transtornos. O aluguel na cidade é muito caro e quando é pra gente do Pinheirinho não querem alugar. Dois anos congelado é muito tempo. Tem de reajustar até entregar as casas”, falou.

O ato de hoje não se trata apenas de lembrar o que ocorreu, mas sim de mostrar que não vamos esquecer e a nossa luta continua”, disse Toninho Ferreira, advogados dos moradores do Pinheirinho e presidente municipal do PSTU de São José dos Campos.

Vamos cobrar a punição dos responsáveis por aquele absurdo, a reparação pelos danos morais e materiais às famílias, bem como a desapropriação do antigo terreno e uma lei contra despejos violentos”, defendeu Toninho.

"Vamos cobrar que estas casas fiquem prontas o mais rápido possível e que o novo bairro tenha creches, unidades básicas de saúde, escolas e transporte de qualidade. Tenho certeza que, com a experiência de luta dos companheiros do Pinheirinho, somada à ótima recepção dos moradores que já estão instalados aqui, conseguiremos muitas melhorias para toda comunidade", concluiu.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

PINHEIRINHO: 2 ANOS DEPOIS

Há exatamente dois anos ocorria a violenta desocupação do bairro Pinheirinho, em São José dos Campos, onde ocorrerá um ato a partir das 10 horas de hoje lembrando a criminosa ação praticada pelo Estado contra cidadãos e suas moradias.

O evento será realizado no local onde estão sendo construídas as novas moradias dos desabrigados, no bairro do Putim.

Entendemos que se trata de mais uma importante ação com o objetivo de não deixar cair no esquecimento da sociedade as inúmeras indignidades e ilegalidades praticadas contra as centenas de famílias que foram jogadas na rua da noite para o dia em uma prática desumana como se vivêssemos em um Estado de exceção.

Os Advogados para a Democracia continuam acompanhando os acontecimentos e articulando formas de participação em defesa dos oprimidos.

SOMOS TODOS PINHEIRINHO!

Relembre o caso:

sábado, 9 de março de 2013

NOTA OFICIAL


Foi com grande pesar que o COADE (Coletivo Advogados para a Democracia) tomou conhecimento do falecimento do presidente venezuelano Hugo Rafael Chávez Frías na última terça-feira.

Não há como deixarmos de reconhecer as inúmeras transformações econômicas, políticas e sociais realizadas por ele nos últimos 14 anos. O Chavismo devolveu, democraticamente, a Venezuela aos venezuelanos. Ele jamais aceitou a exploração praticada por décadas em seu país pelo governo norte-americano.

Esse cenário formado por fatos fez de Chávez a maior liderança da história do seu país e uma das maiores referências de luta pela libertação em toda a América Latina e Caribe.

Hugo foi fundamental para o fortalecimento da América do Sul participando diretamente da criação da Unasul e da Celac. Além disso, com ele foi possível verificar o surgimento de uma parceria entre Venezuela e Brasil como jamais ocorreu.

O homem morre mas deixa eternizado para a humanidade e, em especial aos latino-americanos, a comprovação de que é possível unir povos sem guerras ou agressões tornando a coexistência da nossa raça, efetivamente, humana.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

"RESGATAMOS AS PESSOAS, NÃO OS BANCOS"


"Resgatamos as pessoas, não os bancos."  Os bombeiros da cidade de Coruna, na Espanha, exibiram um cartaz com esta frase ao se recusarem a cumprir uma ordem judicial para despejar uma senhora de 85 anos e jogá-la na rua.

A octogenária Aurellia Rey vive de uma pensão de 356 euros por mês e não conseguiu pagar o aluguel de 126 euros mensais.

Os bombeiros espanhóis se recusaram a cumprir uma ordem legal mas ilegítima, já aqui no Brasil, a tropa de choque do governo paulista e a guarda civil metropolitana da cidade de São José dos Campos  cumpriram, com requintes de crueldade, uma ordem judicial também  ilegítima e injusta, quando da desocupação do terreno do Pinheirinho.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

NOTA DE REPÚDIO AO RELATÓRIO DA OAB/SJC SOBRE A DESOCUPAÇÃO DO PINHEIRINHO


 
O coletivo “Advogados para a Democracia”, vêm a público repudiar o Relatório da “Comissão Especial para Acompanhamento da Desocupação do Local Denominado Pinheirinho” da OAB de São José dos Campos.

Tomamos conhecimento do Relatório da OAB/SJC no dia 13/06/2012, através de notícia publicada no site do TJ/SP, com o seguinte título “OAB descarta violação dos direitos na reintegração de posse no Pinheirinho”. Pelo título da notícia já era possível ter uma ideia do conteúdo porvir.

O Relatório inicia descrevendo as histórias de vida e o drama dos moradores do Pinheirinho de forma emotiva, esclarecendo que é “fruto de um esforço conjunto que envolveu dezenas de advogados que voluntariamente acompanharam toda a problemática em suas diversas fases e realizaram incontáveis diligências”. Estranho, pois, acompanhamos de perto durante as três semanas que se seguiram ao massacre, visitando os acampamentos, conversando com os desabrigados e cadastrando famílias juntamente com integrantes de movimentos sociais, do Condepe-SP, advogados e voluntários; e não tomamos conhecimento da presença das “dezenas de advogados”. O único advogado voluntário representando a OAB/SJC que estava presente era o Doutor Aristeu Cesar Pinto Neto.

Cabe esclarecer que no dia 04/02, quando estivemos em São José dos Campos, enquanto aguardávamos na recepção do Hospital Municipal (juntamente com o Deputado Adriano Diogo, o advogado Antonio Donizetti Ferreira e outros companheiros) pela ficha médica do Sr. Ivo que, segundo testemunhas, foi violentamente agredido por policiais, tivemos a oportunidade de conversar com o advogado e então presidente da Comissão de Direitos Humanos, Aristeu Cesar Pinto Neto que nos relatou a insatisfação da diretoria da OAB com a sua atuação na defesa dos direitos dos moradores de Pinheirinho. Pela conversa ficou bem claro que a OAB de São José dos Campos endossa a ação da Prefeitura, do Governo do Estado e do Poder Judiciário contra os moradores. Alguns dias depois (em 15/02) soubemos que a referida comissão foi extinta pelo presidente da OAB local sem justificar os motivos.

O relatório procura justificar no tópico “As causas que contribuíram para a tragédia”, que o ocorrido se deu pela posição irredutível dos moradores, insinuando que a morosidade do processo foi em razão dos “inúmeros recursos, defesas apresentadas pelos advogados dos moradores”(sic).

Contrariando a própria retórica, pois a alegação é de que não se está à procura de culpados, afirma que os moradores e advogados visavam, “principalmente o incentivo à ocupação desordenada com o objetivo justamente de afrontar o Poder Judiciário e impedir a execução de suas ordens”.
Além disso, o relatório busca culpar os líderes de um suposto “movimento” seguindo o que foi veiculado pelo poder do Estado e pela grande mídia, deixando inequívoca a intenção de manipulação da opinião pública. O que ocorreu foi simplesmente exercitar o direito à dignidade humana por parte dos moradores, seus representantes legais e alguns parlamentares.

O tal “movimento” nada mais é do que representantes da comunidade exercendo os seu direito constitucional de se organizar. Trata-se de mais uma forma de criminalização de organizações sociais.

A frieza na elaboração e conclusão do relatório, posta em defesa do poder judiciário e das instituições públicas é no mínimo estranha, quando a obrigação da OAB deveria ser a defesa intransigente dos direitos humanos contra tudo e todos, inclusive a despeito do alegado
devido processo legal1.

Isto porque, a realidade fática é seguramente muito diferente daquela traçada pelo relatório, que estranhamente foi publicado na página central do site do Tribunal de Justiça de São Paulo, que a toda evidência não necessita de defensores.
Oportuno registrar que há fragilidade nas alegações do dito relatório, pois o terreno desapropriado era parte do patrimônio de uma empresa falida e, portanto, faz cair por terra a defesa da propriedade em desfavor da moradia e consequentemente da dignidade da pessoa humana, não sendo crível que a OAB compactue em favor daqueles que, para expulsar os moradores do Pinheirinho, alçaram o direito à propriedade da falida sem se importar com a sua necessária função social.

O relatório em nenhum momento apontou objetivamente quais foram as medidas tomadas pela OAB para assegurar o direito daquelas minorias, a não ser comprometer-se em levar a sociedade uma discussão superficial e tendenciosa sobre fatos vivenciados pelos moradores daquela comunidade. Além disso, segundo o relatório, foi garantido o ingresso de um advogado representante de uma empresa tendo escolta policial para a retirada de cerca de trinta mesas de bilhar dadas em comodato a diversos bares do local reiterando a exclusiva preocupação em preservar o patrimônio empresarial não sendo oferecido aos moradores a mesma possibilidade com relação aos seus pertences.
A instituição afirma que participou de várias reuniões com diversos órgãos públicos envolvidos na logística da desocupação, ou seja, sabia que o Poder Público não estava preparado para receber as mais de mil famílias que seriam desalojadas, sabia que não haveria moradia para elas e mesmo assim apoiou a desocupação, preocupando-se tão somente em proteger o direito de propriedade.

Está claro que havia condições de prever que seria impossível uma operação dessa magnitude sem que ocorresse o desrespeito aos direitos dos cidadãos que ali residiam. As famílias foram obrigadas a deixar seus lares, pertences, documentos e animais domésticos para trás sem ter para onde ir e a OAB tinha ciência desse fato e se omitiu apoiando a operação. Como se isso não bastasse, o relatório afirma que houve uma parceria do Município com o Poupatempo permitindo a emissão de RG para aqueles que “não possuíam” este documento e, novamente, omite o fato de que esses cidadãos perderam seus documentos devido à ação irresponsável do poder público quando da desocupação.
Não podemos deixar de esclarecer que todas as afirmações supracitadas decorrem, também, do testemunho in loco de membros deste Coletivo uma vez que estiveram por diversas vezes nos abrigos CAIC D, Pedro, Ginásio de Esportes D. Pedro, Ginásio de Esportes Jardim Morumbi e Ginásio Esportivo Vale do Sol onde foi possível verificar o absoluto desrespeito com as famílias que residiam no Pinheirinho, a saber:

  • A estrutura dos abrigos não era ideal e nem adequada para atender a demanda;
  • As famílias estavam amontoadas nos abrigos superlotados a ponto de se “acomodarem” nos banheiros dos ginásios. Havia crianças, idosos e deficientes;
  • Os banheiros eram coletivos sendo que muitos deles eram abertos não oferecendo privacidade às pessoas;
  • A moradia de cada família se limitava a um colchão no chão dos abrigos.
  • Os animais que sobreviveram ao massacre e se perderam dos seus donos, perambulavam nesses ambientes fortalecendo os problemas de higiene e saúde.
  • A comida fornecida pela Prefeitura era de péssima qualidade e insuficiente para alimentar a todos. Muitos reclamavam que há dias não havia mudança no cardápio e que a alimentação era muito salgada e azeda. O café da manhã se limitava a pão, café e leite insuficientes para todos, em especial, ao grande número de crianças.
  • Foram disponibilizados, de forma precária, atendimento médico, assistência social, psicólogos e policiamento.
  • Nos abrigos, as pessoas tinham medo de represália da prefeitura e evitavam comentar sobre o que viviam ali pois afirmavam que existiam agentes do poder público infiltrados entre os desabrigados. Ainda assim foi possível ouvir centenas de testemunhos.
  • Verificamos a falta de medicamentos e o desespero para a obtenção dos mesmos.
  • As famílias pediam para que doações fossem entregues diretamente a elas porque nem tudo que era doado chegavam para os desabrigados.

É inadmissível à OAB, que nasceu sob a premissa de defender os direitos humanos, analisar o caso apenas no campo da legalidade deixando à margem a percepção de legitimidade, se esquivando da sua função precípua de luta pelo Estado Democrático de Direito e se omitindo diante da prevalência da propriedade improdutiva da massa falida sobre o direito à moradia.

Clécio Marcelo Cassiano de Almeida
Ellen Caixeta
Francisco Jucier Targino
Nilva Souza
Rodrigo Sérvulo da Cunha 
Walter Luz Amaral


ADVOGADOS PARA A DEMOCRACIA

Fontes:





1 “LUTA. Teu dever é lutar pelo direito. Mas no dia em que encontrares o Direito em conflito com a Justiça, luta pela Justiça” (Eduardo Couture).

segunda-feira, 4 de junho de 2012

DIREITOS HUMANOS SERÃO ENSINADOS EM ESCOLAS E UNIVERSIDADES

 

Da Rede Brasil Atual

São Paulo – A partir do ano que vem o ensino de direitos humanos vai começar a fazer parte do cotidiano de estudantes de todo o país. A decisão foi tomada pelo governo federal durante a homologação das diretrizes nacionais para educação em direitos humanos.

De acordo com o Plano Nacional de Direitos Humanos, as diretrizes homologadas têm como fundamento os princípios de dignidade humana; o reconhecimento e a valorização das diferenças e das diversidades; a laicidade do Estado; a democracia na educação; a transversalidade, a vivência e a globalidade; e a sustentabilidade socioambiental.

O ensino das diretrizes será inserido no currículo das matérias já existentes da educação básica e de ensino superior. A inserção poderá ocorrer pela transversalidade utilizando temas relacionados aos direitos humanos e tratados interdisciplinarmente; como um conteúdo específico de uma das disciplinas no currículo escolar ou ainda de maneira mista, combinando transversalidade e disciplinaridade.

A ministra Maria do Rosário, da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH/PR) declarou em nota que a homologação das diretrizes é um ato de ousadia. "Achamos que é possível a formulação pedagógica dos direitos humanos. Com essas diretrizes, vamos produzir a construção de valores na sociedade para combatermos, no ambiente escolar, o bullying, a homofobia, a discriminação por classe social, cor, raça, religião, entre outros.”

 “O primeiro desafio que precisamos vencer é a violência na própria sala de aula, o desrespeito ao professor, as agressões entre alunos, a discriminação de raça, de orientação sexual e de religião”, disse o ministro da Educação Aloizio Mercadante, em nota. “Nós não podemos ter um pacto de silêncio com essa situação que está presente em sala de aula. A escola tem de ser uma escola de valores, para termos uma cidadania plena no Brasil.”

O presidente do Fundo Brasil de Direitos Humanos e coordenador da ONG Ação Educativa, Sérgio Haddad, observa que o ensino de direitos humanos, no âmbito escolar, facilita o diálogo e ajuda no combate do racismo, sexismo, discriminação social, cultural e religiosa.

Segundo Sérgio Haddad, o Brasil tem evoluído economicamente, porém ainda convive com muitas violações, como o assassinato de pessoas no campo; presídios em condições sub-humanas; violência nas cidades; entre outros direitos que deveriam ser valorizados em nossa sociedade. “Não devemos ser apenas exemplos de inclusão de pessoas no poder econômico, também devemos ser exemplo do exercício dos direitos humanos em sua plenitude”, ressaltou.

Para ele, o sistema escolar está voltado tradicionalmente a uma lógica econômica. “Vivemos em uma sociedade de consumo, na qual a escola só serve para formar trabalhadores que possam ganhar dinheiro e consumir cada vez mais. Não ensinamos os alunos a viver em sociedade ou a respeitar seus companheiros”. Ele lembra que o ensino do respeito às diferenças e da tolerância ajudam a construir um país sem desigualdade e economicamente evoluído.

“As diretrizes são algo concreto para que cada professor nas redes formais e não formais de ensino produzam ações pedagógicas para enfrentarmos situações banalizadas de violência”, exemplificou a ministra Maria do Rosário, ao falar sobre os conflitos contemporâneos existentes na escola e na sociedade, como agressão, racismo, homofobia e outras formas de discriminação.

Para Sérgio Haddad, os professores que vão aplicar a disciplina devem ser preparados com cursos e formações. “O estudo dos direitos humanos modifica a formação geral do aluno; é a forma de despertá-lo para a cidadania. O professor deve estimular esse aprendizado aos poucos, durante as aulas com exemplos do cotidiano.”

As diretrizes integram as ações previstas no Plano Nacional de Direitos Humanos 3 (PNDH-3). O plano apresentou uma série de avanços dos direitos humanos do país. São exemplos a comissão da verdade, os avanços na constitucionalidade da união civil entre pessoas do mesmo sexo e do sistema de cotas para negros nas universidade públicas.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

STF decide sobre aborto de anencéfalos



Por Ellen Caixeta

Na tarde desta quinta-feira o STF decidirá se a antecipação terapêutica de parto, no caso de gravidez de feto anencéfalo, fere os artigos 124, 126 e 128, incisos I e II, do Código Penal.

Trata-se do julgamento da ADPF (Ação de Descumprimento de Preceito Fundamental) nº 54, que iniciou em 2004, quando a CNTS (Confederação Nacional dos Trabalhadores na Saúde) ajuizou ação pretendendo que o STF “declare inconstitucional, com eficácia erga omnes e efeito vinculante, a interpretação dos artigos 124, 126 e 128, incisos I e II, do Código Penal, como impeditivos da antecipação terapêutica do parto em casos de gravidez de feto anencefálico diagnosticados por médico habilitado, reconhecendo-se o direito subjetivo da gestante de se submeter a tal procedimento sem a necessidade de apresentação prévia de autorização judicial ou qualquer outra forma específica do Estado”.

O ministro Marco Aurélio concedeu, à época, liminar, mas a decisão foi cassada pela maioria do Plenário.

 De 2004 para cá, mais de vinte instituições foram ouvidas em audiências públicas, a exemplo da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB, Igreja Universal, Conselho Federal de Medicina e Rede Nacional Feminista de Saúde, Direitos Sexuais e Direitos Reprodutivos.

Hoje, para fazer a interrupção da gravidez nesses casos, é necessário   autorização judicial. Os juízes que autorizam fundamentam no princípio da dignidade da pessoa humana e no fato de que em se tratando de anencefalia, não há propriamente aborto já que este pressupõe a expectativa de vida, o que não ocorre quando há ausência de cérebro.

Dos seis ministros que votaram ontem, 5 foram a favor do reconhecimento do direito à interrupção (Marco Aurélio Melo, Carmem Lúcia, Rosa Weber, Luiz Fux e Joaquim Barbosa) e um contra (Ricardo Lewandowski).

O Ministro Marco Aurélio encerrou seu voto afirmando que "a questão posta neste processo – inconstitucionalidade da interpretação segundo a qual configura crime a interrupção de gravidez de feto anencéfalo – não pode ser examinada sob os influxos de orientações morais religiosas. Essa premissa é essencial à análise da controvérsia."

Em seu voto Carmen Lúcia, afirmou: “Numa democracia, a vida impõe respeito. E este feto não tem vida, mas a mãe e o pai desta criança têm e sofrem com esta gravidez. Por isso, voto a favor da descriminalização do aborto de anencéfalos.

Luiz Fux, por sua vez, declarou: “O STF evidentemente respeita as mulheres que desejarem realizar o parto mesmo que anencéfalo. Temos que avaliar se é justo, sob o âmbito criminal, colocar essa mulher no banco do júri por conta de um aborto. É lamentável que a mulher a padecer dessa tragédia [carregar o feto anencéfalo] durante nove meses seja criminalizada, e jogada no banco do Tribunal do Júri”.

Ricardo Lewandowski que votou contra, sem enfrentar diretamente o mérito do pedido, afirmou que a lei sobre o tema deve partir do Parlamento, e não do Judiciário. E lembrou que o Congresso Nacional tem projetos de lei que disciplinam o assunto.

É necessário apartar as convicções religiosas do direito, pois o direito não pode ficar à mercê da religião quando se está dentro de uma República laica, com fortes bases democráticas. Assim, obrigar a mulher a carregar um feto sem expectativa de vida é uma agressão a sua integridade física e psicológica. Assemelha-se à tortura.