Do Correio da Cidadania
Movimento
aponta que pelo menos 400 mil imóveis estão desocupados na cidade de
São Paulo. Ao mesmo tempo, uma série de despejos estão em curso.
Levantamento realizado pelo movimento de moradia aponta que pelo
menos 400 mil imóveis estão desocupados na cidade de São Paulo. Ao mesmo
tempo, uma série de despejos está em curso. No mais recente, 94
famílias sem-teto foram expulsas do prédio que ocupavam na Avenida
Ipiranga, no centro. No local, funcionou um hotel, abandonado há mais de
sete anos.
Outra ocupação que corre risco de despejo é um prédio localizado na
Avenida São João, também no centro. O imóvel está abandonado há 20 anos,
mas uma ordem judicial determinou a saída de 85 famílias até o dia 11
de setembro. Os atuais moradores estão no local há quase dois anos.
Situação parecida vive um grupo de famílias na Rua Mauá, que resistem há
cinco anos e meio.
Donizete Sanches, integrante do Movimento de Moradia da Cidade de São
Paulo (MMC) denuncia uma situação de abandono das famílias sem-teto.
Para ele, não há nenhum comprometimento nem da prefeitura, nem do
governo estadual, nem da União.
Radioagência NP: Qual é a situação geral das famílias sem-teto na cidade de São Paulo?
Donizete Sanches: Na cidade de São Paulo existem 400
mil imóveis vazios. E isso é contraditório. Se tem uma grande demanda
de famílias que não tem casa para morar, como pode ter imóveis vazios? E
eles estão assim para a especulação imobiliária. Existem imóveis que
estão fechados há dez, quinze anos, não pagam impostos e esperam apenas o
momento oportuno para negociar. Dentro desse quadro, nós nos
organizamos e pressionamos os governos para que essas famílias sejam
atendidas. A gente vê as áreas que podem ser reivindicadas junto aos
governos e ocupa essas áreas.
Como são as políticas municipais voltadas para a moradia?
Não há uma política oficial efetiva. A prefeitura, ao invés de
atender às famílias, dá uma bolsa-aluguel no valor de R$ 300. As
famílias ficam impossibilitadas de alugar um espaço aqui na região
central. Ou seja, essas famílias têm que ir para a periferia, sendo que
elas têm sua vida profissional aqui no centro. O valor da bolsa-aluguel
já é baixo para isso mesmo, para fazer com que as famílias se afastem do
centro.
Os programas do governo do estado correspondem com a necessidade das famílias?
Há muito tempo o governo do estado não vem atendo às necessidades das
famílias de baixa renda. Há uma determinação de que 1% do ICMS seja
revertido para moradias populares. E o dinheiro está retornando porque
não está havendo investimento. O governo constrói alguns empreendimentos
pela CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano) e só os
funcionários públicos e policiais são atendidos. As famílias de baixa
renda ficam de fora.
Como você avalia a atuação do governo federal?
Infelizmente, o governo federal não está cumprindo com o seu papel. O
valor do imóvel no programa Minha Casa, Minha Vida era de R$ 130 mil e
subiu para R$ 170 mil. Ou seja, ele está atendendo mais aos interesses
do grande mercado imobiliário do que aos interesses dos trabalhadores de
baixa renda. Se esses trabalhadores já tinham dificuldade de entrar em
um programa cuja moradia custava R$ 130 mil. agora terão ainda mais
dificuldade com um valor maior.
Que desafios o movimento de moradia enfrenta, já que existem tantas forças contrárias à efetivação desse direito?
O movimento vem sendo criminalizado, principalmente pelo governo do
estado. A gente observa que alguns movimentos sofreram uma dura
repressão. Coisas que a gente não via nem no período da ditadura militar
a gente está vendo agora: mulheres, crianças, idosos, pessoas com
deficiência sendo agredidas. E o governo federal apenas fecha os olhos.
Parece que São Paulo é um outro país, que não pertence ao Brasil.